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Arquivos inclusão - Sondery - Acessibilidade Criativa https://sondery.com.br/tag/inclusao/ Tue, 04 Apr 2023 21:56:50 +0000 pt-BR hourly 1 https://sondery.com.br/wp/wp-content/uploads/2021/09/cropped-Sondery_Reduzido-32x32.png Arquivos inclusão - Sondery - Acessibilidade Criativa https://sondery.com.br/tag/inclusao/ 32 32 7 Mitos e Verdades sobre pessoas Autistas https://sondery.com.br/7-mitos-e-verdades-sobre-pessoas-autistas/ https://sondery.com.br/7-mitos-e-verdades-sobre-pessoas-autistas/#comments Thu, 21 Jul 2022 18:41:43 +0000 https://sondery.com.br/?p=2266 O que vem a sua mente quando você lê a palavra “autismo”? Provavelmente você deve ter pensado em uma criança séria de uns 5 a 7 anos, do gênero masculino, brincando de forma isolada sem interagir com as pessoas ao redor. Acertei? Se você pensou em algo próximo disso, saiba que essa é uma representação […]

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Imagem de fundo branco com textura de vários hexágonos juntos e um grande símbolo do infinito colorido, o símbolo da neurodiversidade.


O que vem a sua mente quando você lê a palavra “autismo”? Provavelmente você deve ter pensado em uma criança séria de uns 5 a 7 anos, do gênero masculino, brincando de forma isolada sem interagir com as pessoas ao redor. Acertei?

Se você pensou em algo próximo disso, saiba que essa é uma representação muito comum. Porém, é uma percepção equivocada baseada em estereótipos que acabam sendo muito reproduzidos. Mas não sinta culpa se você associou o autismo a essas características! Vamos te ajudar a repensar alguns mitos sobre o assunto nesse post.

Primeiro, é importante definir o autismo. Ele é uma condição de desenvolvimento neurológico e cognitivo que faz com que a pessoa apresente diferenças nas habilidades sociais, de comunicação e de interesse quando comparado com pessoas com desenvolvimento típico. Atenção, não é uma doença!

O nome “oficial”, de acordo com a literatura médica, é Transtorno do Espectro Autista (TEA). Mas as pessoas autistas têm tentado mudar essa nomenclatura para excluir a palavra “transtorno”, que acaba sendo muito forte e passa a ideia do autismo como um problema. Por isso, tem sido comum usar apenas “espectro autista”. O termo “espectro” é importante para mostrar que autismo se manifesta de forma bem diversificada e nenhuma pessoa autista é igual à outra. De modo geral, o autismo pode ser classificado em três níveis de suporte:

  • Nível 1 – pouco suporte: pessoas que podem ter dificuldade para se comunicar, interagir e se organizar, mas conseguem ter um nível de autonomia e independência. Geralmente, autistas de nível 1 de suporte não apresentam comorbidade com a deficiência intelectual;
    Nível 2 – precisa de suporte: pessoas que apresentam algumas dificuldades nas habilidades de comunicação, principalmente verbal e, com isso, podem precisar de suporte para conseguir se comunicar. Também apresentam maior dificuldade nas interações sociais e mais rigidez cognitiva;
    Nível 3 – precisa de maior suporte: apresentam dificuldades mais graves na comunicação verbal e o suporte pode ser essencial para que elas consigam se comunicar. As habilidades sociais também são mais comprometidas e a rigidez cognitiva pode ser maior. Em alguns casos, há comorbidade com a deficiência intelectual.

As pessoas costumam chamar esses três níveis de leve, moderado e severo, mas essa não é uma forma correta! Afinal, ser nível 1 de suporte não significa ter características “leves”, pois a pessoa ainda pode precisar de suporte. E também é importante ressaltar que pessoas em um mesmo nível de suporte podem ter características bem diferentes.

Outras duas coisas que é importante você saber:

  • Não existe mais “síndrome de Asperger”, que era considerado um autismo “leve”. Essa nomenclatura já caiu em desuso e não é usada nem mesmo mais na área médica. Além disso, o nome Asperger remete ao criador do termo, que era um médico nazista – ou seja, já está mais do que na hora de parar de falar dele por aí, né?
  • Muitas pessoas autistas preferem o termo “autista” ao invés de “pessoa com autismo”, pois elas consideram que o autismo é uma parte inseparável delas, então elas não “têm autismo” elas “são autistas”. Mas isso varia de pessoa para pessoa, não é consenso.

Agora que você sabe um pouco mais sobre o assunto, vamos derrubar sete mitos muito comuns sobre o autismo.

Mito 1: “Autistas não têm empatia.”

Verdade: Autistas podem ter dificuldade em entender sentimentos e expressões faciais, mas isso não significa que não se preocupam com as outras pessoas e nem têm empatia. Há pessoas autistas que são altamente empáticas.

Mito 2: “Autistas são pessoas inocentes, puras e ingênuas.”

Verdade: Muitas pessoas autistas interpretam as coisas de forma literal e podem ter dificuldade em identificar se alguém está mentindo, mas isso não faz todas elas serem pessoas ingênuas ou que podem ser facilmente enganadas. Inclusive, autistas podem mentir como qualquer outra pessoa! Esse rótulo de pureza tem nome: capacitismo.

Mito 3: “Autistas se dão melhor nas áreas de exatas.”

Verdade: Ser uma pessoa mais objetiva, literal e lógica não faz com que a pessoa autista tenha automaticamente interesse nas áreas de exatas, como computação. Há pessoas autistas trabalhando nas áreas de comunicação, design, psicologia, artes, marketing e várias outras.

Mito 4: “Autistas vivem em mundo particular.”

Verdade: Autistas podem ter momentos em que ficam com grande atenção em uma tarefa (hiperfoco) e pode acabar não atendendo quando alguém a chama, mas isso não quer dizer que a pessoa está alheia ao mundo à sua volta ou que não entende as coisas que estão acontecendo.

Mito 5: Considerar pessoas autistas “gênios” ou achar que elas têm deficiência intelectual.

Verdade: Algumas pessoas autistas têm QIs mais altos do que outras pessoas e algumas têm níveis de QI dentro da média. A verdade é que algumas pessoas autistas também têm deficiência intelectual e outras não. Lembre-se: o autismo NÃO é uma deficiência intelectual. Algumas pessoas autistas podem falar e se comunicar verbalmente, outras não.

Mito 6: “Pessoas autistas são antissociais.”

Verdade: Autistas podem precisar de apoio nas habilidades sociais ou interagir de maneira diferente com o mundo ao seu redor, mas a maioria gosta de ter relacionamentos. As pessoas mostram suas dificuldades sociais de diferentes maneiras. Algumas pessoas autistas são quietas e tímidas ou evitam situações sociais, outras falam demais e têm dificuldades para manter uma conversação.

Mito 7: “Autismo é muito mais comum em homens do que em mulheres”

Verdade: O autismo parece ser mais comum em homens. Mas as mulheres são mais propensas a “mascarar” seu autismo desde a infância, aprendendo as habilidades para interagir com o mundo melhor do que os homens. Isso pode significar que muitas meninas e mulheres autistas recebem um diagnóstico muito mais tarde na vida do que os meninos.

Conclusão

Como você pode conferir nesse post, o autismo é uma condição muito diversificada e ainda há muitas percepções preconcebidas sobre o assunto que fazem com que as pessoas tenham uma imagem imprecisa do que é uma pessoa autista.

Para as pessoas autistas, o autismo é visto como uma identidade, uma diferença neurológica e até mesmo uma cultura, e não uma “doença” ou “transtorno”. Além disso, lembre-se: autistas crescem, trabalham, praticam esportes, fazem compras, se casam, têm filhos.

Espero que você tenha gostado deste conteúdo. Conta pra gente aqui nos comentários, qual dos mitos e verdades mais te surpreenderam?

Referências

Autistica. Autism myths and causes (artigo em inglês).

One Central Health, 2020. 10 Myths About Autism Spectrum Disorder (artigo em inglês).

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A acessibilidade e o jeito errado de descascar banana https://sondery.com.br/a-acessibilidade-e-o-jeito-errado-de-descascar-banana/ Wed, 27 Oct 2021 19:00:20 +0000 https://sondery.com.br/?p=2198 Outro dia uma amiga minha me mandou ler um texto chamado “27 coisas que você faz errado e não sabia”. Sim, era uma dessas listas que bombam na internet, mas não trazem nenhuma informação útil de verdade, como por exemplo, usar a tampa do Tic Tac para pegar uma balinha ao invés de derrubar várias […]

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Imagem de um chimpanzé apontando para um quadro negro verde onde está desenhada uma banana descascada pela metade em giz amarelo.

Outro dia uma amiga minha me mandou ler um texto chamado “27 coisas que você faz errado e não sabia”. Sim, era uma dessas listas que bombam na internet, mas não trazem nenhuma informação útil de verdade, como por exemplo, usar a tampa do Tic Tac para pegar uma balinha ao invés de derrubar várias direto na mão – coisa que ninguém faz, pois é óbvio que queremos encher a boca do doce, né?

Infelizmente, isso não foi tudo. A descarada da minha amiga me pediu para prestar atenção em um item da lista em particular, e acrescentou: “você come banana do jeito errado”. Neste ponto preciso explicar: banana é a minha fruta favorita. Eu como pura, amassada com aveia, cozida, frita, grelhada, banana passa, em forma de doce, com sorvete, empanada… eu adoro banana. Não era possível que em mais de três décadas de vida eu estivesse comendo banana do jeito errado esse tempo todo.

Só para explicar para quem nunca viu o famigerado (e afrontoso) post das coisas erradas, ele fala que o certo é descascar a banana pela ponta da fruta, e não por aquele talo que a conecta na penca. Essa tal maneira correta seria baseada na observação de como os macacos abrem a banana.

E daí eu me peguei pensando em acessibilidade. Não em recursos de acessibilidade para abrir uma banana e nem em uma tecnologia assistiva que auxiliasse no descascamento da fruta. Nada disso. Fiquei pensando em como pode ser chato alguém vir nos dizer que estamos fazendo de maneira errada algo que fizemos durante toda a nossa vida. E o pior, se essa pessoa, como acontece muitas vezes, não tivesse conhecimento de verdade de acessibilidade e inclusão, não tivesse contato com pessoas com deficiência que comprovassem as hipóteses dela e tudo mais, e estivesse falando algo que não seja tão verdade só porque ela leu em uma lista na internet. Como você ficaria?

Porém, muitas vezes, ao contrário da banana, nós precisamos abrir a cabeça e aprender, como é o caso da acessibilidade.

O cliente e a consultoria

Trazendo esse pensamento para o dia a dia de uma consultoria de acessibilidade, a gente geralmente vai para as reuniões com nossos clientes para mostrar o que eles estão fazendo de errado. Isso é basicamente um terço do nosso trabalho. Os outros dois são propor soluções e implementá-las. E vou dizer uma coisa: nessas horas, a gente precisa ser muito bom no que faz, muito bom mesmo. Sabe por quê?

Imagina se eu falo para o cliente que ele, um publicitário com mais de vinte anos de carreira, está comendo banana do jeito errado! Você acha que esse cara iria dar alguma moral para o que eu estou falando ou acharia que a nossa consultoria não traz nenhuma informação útil de verdade (exatamente como eu pensei do da lista das 27 coisas)?

Se você não entendeu nada, eu explico: ao contrário da banana, de fato existe o jeito certo de fazer acessibilidade. Existem regras, normas, diretrizes a serem seguidas para garantir a efetividade da acessibilidade. É preciso envolver profissionais com deficiência no processo, para que eles ajudem a pensar nas soluções que melhor lhes sirvam, averiguem todo o trabalho realizado, façam todos os testes necessários. Precisamos eliminar as barreiras de todas as etapas do projeto, sejam físicas, digitais ou atitudinais… um monte de coisas, né?

E o que acontece quando a gente fala com toda a propriedade e conhecimento na hora de apontar o erro?

Khaby Lame e o jeito óbvio de fazer as coisas

Pra gente, a acessibilidade é o único jeito. É impensável que ainda hoje existam estabelecimentos onde um cadeirante não consiga entrar, sites em que um cego não possa navegar com leitor de tela, cinemas onde um surdo não consegue assistir a um filme. As pessoas com deficiência existem, elas estão entre nós, elas estudam, trabalham, lavam a louça, assistem televisão, tomam cerveja no final de semana. Então por que continuar excluindo essas pessoas? Como podemos privá-las do direito de ir e vir, do direito fundamental à informação? De fazer uma compra na internet? De pegar um táxi… é inconcebível, não acha?

Recentemente Khaby Lame ficou famoso na internet fazendo vídeos onde mostrava o jeito óbvio de fazer coisas simples que as pessoas estavam complicando. Você já deve ter visto pelo menos um vídeo dele. Há um em que um homem forte pega uma maçã e a torce com tanta força com as duas mãos que ela se parte ao meio, ao que Khaby mostra que cortar a maçã ao meio com uma faca é muito mais prático, rápido e requer menos esforço.


 

É assim que a gente se sente muitas vezes em relação à acessibilidade. Vou utilizar como exemplo a rampa, porque todo mundo sabe que, a grosso modo, a rampa serve para garantir o acesso de cadeirantes aos lugares, certo? Ok. Agora imagine um restaurante onde logo na entrada existe um par de degraus. Tudo o que me vem à cabeça é o Khaby apontando com as mãos para os degraus e balançando negativamente a cabeça e depois apontando para uma rampa e comprimindo os lábios, mostrando a obviedade da questão: todo mundo poderia entrar no restaurante se ali tivesse uma rampa ou, no melhor dos casos, se o restaurante simplesmente estivesse no mesmo nível da calçada. 

Um exemplo é a WCAG, que explicado nas palavras deles mesmos são “diretrizes e recomendações organizadas e mantidas pelo W3C que fundamentam a construção de conteúdos digitais com qualidade e acessíveis a qualquer pessoa independentemente de sua deficiência e/ou habilidade”. Ou seja, se você quer fazer um site, um aplicativo, uma rede social, vai encontrar lá um material super simples e didático te mostrando como fazer isso de forma acessível, programando com um código limpo e bem feito. E mesmo que exista todo esse material aberto e gratuito na internet, muitos programadores ainda recorrem a difíceis gambiarras no código, criando barreiras e deixando o site inacessível. E novamente o Khaby entra em cena apontando com as mãos para o WCAG! Esse é o jeito certo, pessoal! Ou, pelo menos, o jeito mais certo conhecido até agora.

Moral da história

Sempre que o autor de um texto precisa explicar a moral da história, é porque ele falhou em contá-la direito, né? Eu confesso que me embananei um pouco mesmo (perdão pelo trocadilho). A minha ideia era falar que não tem problema a gente errar, mesmo fazendo coisas que a gente domina. Porém, o mais importante é reconhecer nossos erros e mudar.

Mas é preciso se atualizar, o mundo mudou para melhor, precisamos preparar o terreno para tirar as pessoas com deficiência da invisibilidade forçada que a falta de acessibilidade as colocou.

  1. Se você não faz de forma acessível, você está errado. A acessibilidade é o único jeito de incluir todas as pessoas. Ou você realmente quer continuar conscientemente excluindo uma parcela da população?
  2. Se for pra errar, erre na acessibilidade e não na falta dela. Como eu disse, a gente acredita que exista sim um jeito certo de fazer acessibilidade. Mas não se preocupe, pois existem muitos materiais na internet para te ajudar a dar os primeiros passos na acessibilidade no seu trabalho, na sua empresa, agência… estude estas diretrize e direcionamentos e dê o seu melhor; o que não pode é deixar de fazer.
  3. Se errar, não se preocupe se te apontarem seus erros (aprenda com isso). Nós utilizamos uma metodologia na Sondery em que os nossos clientes se envolvem no trabalho de forma a também aprenderem os processos e diretrizes da acessibilidade, garantindo que os seus trabalhos fiquem cada vez melhores.

 

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Como o Dia dos Namorados bate no coração e no bolso de (todos?) os casais https://sondery.com.br/como-o-dia-dos-namorados-bate-no-coracao-e-no-bolso-de-todos-os-casais/ https://sondery.com.br/como-o-dia-dos-namorados-bate-no-coracao-e-no-bolso-de-todos-os-casais/#comments Tue, 12 Jun 2018 14:59:15 +0000 https://sondery.com.br/?p=1011 Aviso: Os exemplos dados no texto usam homem e mulher fazendo referência a um casal, mas você pode ler com o gênero que preferir. Todos se aplicam 🙂 Dia 12 de junho é uma data para celebrar o amor. Mas também é o dia responsável pelo aumento de 30% no faturamento dos bares e restaurantes, 10% […]

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Aviso: Os exemplos dados no texto usam homem e mulher fazendo referência a um casal, mas você pode ler com o gênero que preferir. Todos se aplicam 🙂

fotografia vista de cima: em uma superfície de madeira, velas roxas acesas formam a imagem de um coração

Dia 12 de junho é uma data para celebrar o amor. Mas também é o dia responsável pelo aumento de 30% no faturamento dos bares e restaurantes, 10% no comércio eletrônico, 20% no setor de motéis, 15% no setor de sex shops compondo uma injeção de até R$15,6 bilhões na economia. O Dia dos Namorados é, certamente, uma das melhores datas do setor comercial para a realização de promoções de vendas. No primeiro semestre, sobretudo, essa data comemorativa só perde em faturamento para o Dia das Mães. Mas será que todos os apaixonados podem participar e aproveitar plenamente essas ofertas?

Quebrando o tabu: vamos nos despir dos preconceitos

Para falarmos da participação da pessoa com deficiência nas promoções de dia dos namorados é preciso desconstruir uma barreira importante de reconhecer a pessoa como alguém “namorável” – isso passa pela percepção de pessoa, de gênero, de sujeito, de cidadão, de parceiro, de amigo, de amante, de companheiro de vida – e plenamente participante de um relacionamento, com tudo incluso: declarações, rotina, viagens, brigas, prazer, etc.

Para atingirmos o ideal de sociedade inclusiva ainda temos que avançar muito, e o primeiro passo é quebrar os mitos existentes:

  1. pessoas com deficiência são assexuadas: não têm sentimentos, pensamentos e necessidades sexuais;
  2. pessoas com deficiência são hiperssexuadas: seus desejos são incontroláveis e exacerbados;
  3. pessoas com deficiência são pouco atraentes, indesejáveis e incapazes para manter um relacionamento amoroso e sexual;
  4. pessoas com deficiência não conseguem usufruir o sexo normal e têm disfunções sexuais relacionadas ao desejo, à excitação e ao orgasmo;
  5. a reprodução para pessoas com deficiência é sempre problemática porque são pessoas estéreis, geram filhos com deficiência ou não têm condições de cuidar deles.

Esses mitos, além de gerar preconceitos desastrosos, acabam reforçando também abordagens estereotipadas que costumam recair sobre qualquer tema quando aplicado à pessoa com deficiência: o Coitadismo, o Super-Heroísmo e agora somando também a Infantilização – diferentes facetas do Capacitismo.

Visualizem a seguinte cena: uma mulher senta-se num restaurante chique com seu namorado para um jantar romântico e o garçom, na hora de retirar o pedido afaga seu cocoruto dizendo com uma voz fina “ai que belezinha, que bonitinha ela, veio no passeiozinho né?” imagina que agradável, só que não. Se essa situação parece um absurdo quando imaginamos a cena com um casal sem deficiência, por que ela passaria a fazer sentido se a personagem tivesse síndrome de down, ou estivesse numa cadeira de rodas ou segurando uma bengala branca, por exemplo? (Dica: continua sendo um absurdo)

Como estamos falando de casais, essa dupla pode ser formada por duas pessoas sem deficiência, duas pessoas com deficiência ou uma pessoa com e outra sem deficiência. É aí que a porteira do capacitismo se abre com os primeiros comentários “Ela é tão bonita, pena que é surda” ou “Ele é um partidão, apesar de ser cadeirante” indo para o “super-heroísmo reverso” direcionado a pessoa sem deficiência, como conta Michele Simões:

Acho tão absurda essa mania que as pessoas têm de classificar os relacionamentos com a mesma lógica de animais de raça, onde o importante é manter as mesmas características para uma linhagem pura. Então imagina o susto quando eu, como cadeirante, entro em um local público de mãos dadas com meu marido – o que por si só já gera um impacto e tanto, afinal ainda se acredita que deficientes não saem de casa, quanto mais se casam e têm filhos – que, para a surpresa geral da nação, anda e não é deficiente.

Após essa sequência, geralmente me deparo com um parabéns direcionado a ele, seguido da justificativa ‘não era qualquer pessoa que aceitaria essa situação, isso sim é prova de amor’”.

Michele é estilista, consultora de imagem e idealizadora do projeto Meu Corpo É Real, que visa questionar os corpos que a indústria da moda trabalha em suas produções e campanhas.

A cama também é luta 

Segundo Ana Rita de Paula, Doutora em Psicologia, especialista em direitos das pessoas com deficiência, em políticas públicas e ativista do movimento, a barreira da sexualidade é a última a ser rompida, “Significa que você já rompeu todas as anteriores”. Ela explica que essa luta – que também é política – é altamente relevante, uma vez que as discussões sobre acessibilidade e inclusão ficavam sempre voltadas, e muitas vezes restritas, aos temas de trabalho, educação e saúde.

Ilustração: sob um fundo verde há uma o ícone de uma pessoa na cadeira de rodas e uma outra pessoa sentada em seu colo.
Logo do Coletivo Sim Fodemos

Este é o foco da militância do Coletivo Sim Fodemos, um grupo de pessoas com deficiência que começou a se organizar para abrir esse debate com toda a sociedade. Segundo os organizadores:

O debate em torno desses temas, corpo, sexo, sexualidade, permite inserir as demandas das pessoas com deficiência num cenário de discussões muito mais amplo do que as discussões em torno da acessibilidade, inclusão escolar, no mercado de trabalho, e outros. Direitos inalienáveis das pessoas com deficiência, mas que não têm possibilitado que as pessoas com deficiência adentrem em discussões, debates e lutas mais amplas e radicais da sociedade brasileira, como as questões de gênero, de padrões corporais e comportamentais, orientação sexual, violência sexual e outros dessa esfera dos direitos humanos.

O Curta metragem O Corpo Deseja, idealizado e dirigido por Juliana Ribeiro, que foi exibido em um dos encontros do coletivo e trata bem essa questão. Lembrando que a causa não se aplica somente a deficiência física, mas também visual, auditiva e intelectual, essa última que sofre ainda mais barreiras dentro da própria diversidade. 

Pipas no Ar é um trabalho pioneiro na área de inclusão social e direitos humanos dirigido pelas psicólogas Lilian Galvão e Fernanda Sodelli em 2005. As oficinas de educação sexual para jovens com deficiência intelectual comprovaram a possibilidade e a necessidade de se trabalhar com pessoas que recebem poucas informações sobre tema, em conseqüência de preconceitos e pensamentos equivocados a respeito da deficiência intelectual e da sexualidade. O documentário Pipas no Ar, realizado com apoio da UNESCO, documentou estas oficinas no Carpe Diem, em São Paulo.

Sexo como AVD

Não podemos ignorar o fato de que – para a maioria das pessoas – prazer a dois é parte fundamental de um relacionamento.

A Organização Mundial da Saúde afirma que a sexualidade é um aspecto importante do bem-estar holístico e que a saúde sexual exige “uma abordagem positiva e respeitosa da sexualidade e das relações sexuais, bem como a possibilidade de ter experiências sexuais agradáveis ​​e seguras.”

É imprescindível reconhecer o sexo como AVD (Atividade de Vida Diária) no processo de reabilitação ou desenvolvimento nas terapias ao longo da vida, especialmente com profissionais de terapia ocupacional, “a fim de aumentar a capacidade do cliente em participar de atividades sexuais, treinar a atividade, desenvolver habilidades e competências, adaptações e indicação de produtos assistivos que permitam a vivência da sexualidade prazerosa, de acordo com os valores e desejo do cliente e de seu parceiro, são os principais objetivos da intervenção Terapêutica Ocupacional na sexualidade da pessoa com deficiência, de qualquer faixa etária e de qualquer nível funcional.  Isso tem um um efeito profundo na vida dessa pessoa“, segundo Dra. Maria de Mello, Terapeuta Ocupacional, Pós Doutora em Ciências da Reabilitação e Tecnologia Assistiva; Coordenadora Geral da Technocare – Soluções Assistiva, Design Universal e Acessibilidade

Mercado potencial

Mas voltemos a nossa data tão florida e comemorada de hoje. Será que os segmentos citados no início estão atentos a essas oportunidades? No Brasil existem aproximadamente 5 mil motéis. Somente na Grande São Paulo são 300 motéis e no estado 1.200 estabelecimentos. Mas no Guia de Motéis, um dos principais buscadores do segmento, somente 18 se dizem acessíveis (“Suíte com acessibilidade”) em todas as regiões do país.

Será que os bares e restaurantes estão pensando na sua estrutura física (acesso, experiência, banheiros) e no processo de reservas? Como é o cardápio? E o treinamento de sua equipe para lidar com as diferenças? 

O e-commerce é acessível a todo tipo de navegação? A escolha de um item, inserção no carrinho, cálculo de frete, finalização da compra. Funciona corretamente com o leitor de tela? E numa loja física, os atendentes estão treinados para atender todos os possíveis compradores?

Os estabelecimentos que não possuem esse olhar, certamente estão perdendo uma boa parcela do público. Que precisa se esforçar previamente para garantir uma experiência agradável.

Minhas experiências ‘positivas’ nos relacionamentos afetivos, no casos de passeios e motéis, sempre dependeu de uma boa pesquisa prévia, para evitar surpresas desagradáveis, e também muita assertividade e uma boa pitada de cara feia. São raros, raríssimos os locais plenamente acessíveis. Esses dias mesmo, ao ir visitar o SESC Paulista, constatei que os vasos sanitários são aqueles abertos no meio, e olha que o SESC segue um padrão de acessibilidade de alto nível. Mas, é importante não perder o bom humor jamais, e no caso de restaurantes e bares, pelo menos nos bairros tradicionais de vida noturna em SP, dá para encontrar locais acessíveis. Com todo o cuidado, pois muitos locais acessíveis deixam de ser acessíveis quando estão lotados. Mas, repetindo, a pesquisa prévia é fundamental. É importante ter claro e bem resolvido que não dá para ir a todos os lugares, e, no meu caso, faço questão de conforto e certeza de que vou, por exemplo, poder usar o banheiro. Quanto a motéis, é possível encontrar alguns com suítes no térreo, e como os banheiros normalmente são grandes, o problema está ‘quase’ resolvido. No último motel em que fui, a suíte ficava no térreo, pesquisei antes, a garagem era tão estreita que não consegui desembarcar, pois não era possível chegar com a cadeira de rodas ao lado do passageiro, que era a minha situação naquele momento, mesmo minha amiga tendo encostado o carro o máximo do seu lado, tendo que passar por cima de mim para desembarcar. Tivemos que dar ré e fazer o desembarque, e posterior embarque, do lado de fora da garagem. Felizmente não estava chovendo, nem tínhamos problemas em manter discrição.” Tuca Munhoz, Ativista pelos direitos das pessoas com deficiência. Ex secretário adjunto da Secretária da Pessoa com Deficiência . Assessor do Grupo de Trabalho Acessibilidade São Paulo Transportes S/A e Coordenador do Coletivo Sim Fodemos.

Com esses questionamentos e colocações desejamos um feliz dia dos namorados a TODOS !

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