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Rafael Duarte [Introdução]: Este episódio do Sonderycast é mais do que apenas um podcast. É uma verdadeira aula, onde a fundadora da Sondery, Ana Clara Schneider, explica os termos e conceitos sobre as pessoas com deficiência, acessibilidade e inclusão, e costura com base em pesquisas, dados e estudos os motivos pelos quais investir em acessibilidade é mais do que um compromisso social, mas também uma estratégia de negócio para alcançar um público consumidor que a maioria das marcas está ignorando e excluindo.
Ana Clara Schneirer:
Oi pessoal, tudo bem?
Eu sou a Ana Clara, da Sondery, e é uma honra estar aqui para receber vocês no início dessa caminhada. Que vai ter muita informação, muito material e muita troca sobre acessibilidade. Hoje eu vou falar um pouquinho sobre os conceitos bem básicos e daí a gente vai poder falar com mais profundidade de termos e vocabulário e algumas terminologias, então todo mundo parte da mesma página, combinado?
Se você não tem muito contato com o universo da pessoa com deficiência com o universo da acessibilidade, é muito importante entender exatamente esses detalhes de conceitos exatamente para não ter muita confusão.
Tem pessoas que acham que a deficiência é algo somente atrelado à falta de algum sentido, à falta de algum membro. Ou então tem pessoas que falam “ah, eu uso óculos, eu tenho miopia, então eu sou uma pessoa com deficiência”. E a verdade não é tão simples assim, não é tão restrito assim.
Então começando a falar, vamos começar então pelo conceito exatamente de pessoa com deficiência. O que define uma pessoa com deficiência. É claro que se eu fosse falar com o muitos detalhes, eu precisaria de horas e horas só para falar dos conceitos sociais, sobre essa palavra, sobre esse termo.
Mas o que a gente precisa entender, pra início de conversa é que a deficiência é somente uma das características que definem uma pessoa. Ela não é a única característica definidora daquele sujeito. E ela é um fenômeno social, porque ela se dá exatamente no encontro desse sujeito, dessa pessoa, com o entorno, com o ambiente, com a sociedade. É exatamente essa a definição da ONU.
Como vocês podem ver no slide o texto diz assim: segundo a ONU, são consideradas pessoas com deficiência aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial os quais em interação com diversas barreiras podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas.
Então foi exatamente isso que eu falei, a deficiência é um fenômeno social muito complexo se dá nesse encontro que pode ser muitas vezes cheio de barreiras ou com menos barreiras. A partir do momento a gente começa a pensar nisso, e a deficiência acontece exatamente nesse encontro não é somente uma questão ligada ao corpo da pessoa, ou aos sentidos, mas exatamente como este corpo e como com essas habilidades essas funcionalidades pode ocupar e usufruir os espaços como qualquer outra pessoa que não tem esse impedimento.
E aí é muito importante também a gente entender a diferença de integração e de inclusão.
Eles são muito utilizados de uma forma quase como sinônimos, Mas eles têm uma diferença conceitual muito grande, muito importante, que na integração existe uma falsa ilusão de inclusão. Quando a gente está integrado, existe ainda um grupo separado, vamos dizer assim: um gueto, um grupo ou uma instituição. Que pode, em alguns momentos, fruir na sociedade como um todo, mas ainda assim separado de todos.
Só pra vocês entenderem o contexto maior, a gente partiu da exclusão, quando as pessoas com deficiência não eram consideradas pessoas, que poderiam e deveriam sobreviver, e aí eu tô falando de homens das cavernas, né? De gerações da história da humanidade, qualquer pessoa que nascesse fora do padrão não permaneceria viva, A gente passa então pra um momento de segregação, depois da exclusão vem a segregação. E somente com a Idade Média, em que as pessoas com deficiência ou pessoas que nascem fora do padrão eram permitidas elas continuariam a viver, mas separadas em locais na sociedade. Então O Corcunda de Notredame normalmente é um exemplo bem prático e didático.
Nesse momento de a segregação, a pessoa fica separada do convívio de todas as pessoas. Com o surgimento da Medicina começa o que a gente chama de modelo médico no entendimento da deficiência. Que é quando a medicina passa considerar a deficiência como uma doença, entre aspas, a ser curada. Ou é o mais “consertado”, fazer com que este corpo se aproxime o máximo possível do padrão considerado normal pra época.
E aí sim vem a integração, quando existem locais de reabilitação, escolas especiais, instituições que separam as pessoas, inclusive por deficiência, instituições para pessoas com deficiência intelectual, ou escolas especiais, enfim e aí a gente reúne todo mundo que é diferente no mesmo grupo, em certos momentos eles podem a partilhar da sociedade, mas ainda existe essa separação.
Isso que é integração. Quando a gente chega na inclusão, tá todo mundo no mesmo espaço. Podendo usufruir com a mesma qualidade da mesma forma, de um jeito pleno e de um jeito muito mais humano e muito mais bacana.
E um outro conceito muito importante para todos entenderem aqui é exatamente “acessibilidade”. Acessibilidade basicamente é poder garantir o acesso a todas as pessoas e aí é muito importante lembrar e entender para todo o sempre, que acessibilidade não é um conceito que se aplica somente a pessoas com deficiência. Ela se aplica a todas as pessoas, inclusive pessoas com deficiência.
Fazer com que todas as pessoas, tenham deficiência ou não, possam acessar espaços, conteúdos, eventos, experiências, é exatamente o fazer com que esse objeto, essa experiência, seja mais acessível e mais inclusivo para todos.
Temos muitas curiosidades sobre soluções que inicialmente foram criadas, a princípio para pessoas com deficiência, com o intuito inicial apenas de acessibilidade, mas que beneficia a todo mundo. O próprio e-mail é um desses exemplos. Ele foi criado para que um homem que tinha uma perda auditiva pudesse se comunicar com a sua esposa que também tinha uma perda auditiva. Ele não poderia usar o telefone e ele queria algo que fosse mais rápido do que um correio, e aí ele criou a base do que veio a ser o correio eletrônico, que hoje é o que a gente utiliza como e-mail todos os dias da nossa vida.
Então esse é só um exemplo bem prático de como muitas vezes funcionalidades e soluções criadas, pensando inicialmente em pessoas com deficiência, podem beneficiar a todos.
E um outro exemplo muito conhecido de todo mundo é a própria rampa. Apesar de ser um exemplo quase clichê, ele é muito utilizado, é muito prático para esse entendimento.
Todas as pessoas podem utilizar a rampa, entendendo que ela tem um formato correto e uma inclinação correta, mas não só pessoas em cadeira de rodas, né? Uma pessoa que esteja utilizando uma bengala, alguém com carrinho de bebê, ou uma mulher grávida, alguém com uma mochila pesada…
Muitas pessoas podem se utilizar do mesmo recurso. Que também pode servir para acessibilidade. Então lembre-se: acessibilidade se refere a todas as pessoas.
E quando a gente vai pensar nessa aplicação considerando um movimento de consumo,
Considerando o desenvolvimento de produto, o desenvolvimento de serviços, entendendo o seu público-alvo, é muito importante lembrar que existem pessoas com deficiência dentro do seu público-alvo seja qual foi o seu recorte, seja qual for o seu target.
Então é muito importante lembrar que não só as pessoas com deficiências são seu público-alvo, mas toda essa rede de indireta de familiares, amigos, colegas, cruches, enfim, toda uma rede de pessoas relacionadas a esse potencial consumidor também pode ser impactada no momento em que você vai desenvolver um produto mais ou menos acessível. E isso pode impactar a decisão desse grupo de pessoas.
“Mas Ana, qual é o tamanho desse grupo de pessoas? Será que realmente é um público em potencial e faz sentido para o meu planejamento estratégico?”
Será que é importante pensar nisso dentro da empresa?
A resposta é: sim. São muitas pessoas com deficiência no mundo e no Brasil e é uma parcela da população que acredito que vai ser muito relevante pro seu público alvo, pro seu planejamento de produto, de serviço, ou de marca. eu tenho alguns dados sobre o poder o poder de consumo de pessoas com deficiências no mundo Na verdade, primeiro o dado demográfico, segundo a ONU são mais de um bilhão de pessoas com algum tipo de deficiência ao redor do mundo. Em termos de potencial de consumo, a gente tem um público muito importante, muito relevante.
A Accenture fez um estudo recentemente e eles identificaram que a comunidade de pessoas com deficiência no mundo todo seria o equivalente à terceiro maior potência econômica com o equivalente a 8 trilhões de dólares por ano em faturamento. Então uma parcela extremamente importante, 8 trilhões de dólares. Só nos Estados Unidos esse valor passa a ser 490 Bilhões de Dólares.
Um outro um outro estudo feito pelo Instituto Americano de Pesquisas, o American Institute for Research, e o nome do relatório dessa pesquisa foi “o mercado oculto”, é realmente uma parcela da população que não tá sendo alcançada, Que ela quer ser bem atendida, quer poder consumir, quer poder acessar os locais e as marcas e as experiências e muitas vezes está sendo privada, está sendo impedida de exercer esse direito, exercer essa vontade por barreiras externas. Então vamos pensar em como a gente pode diminuir essas barreiras externas, para que todas as pessoas possam chegar até a sua marca, sua empresa, seu restaurante, sua casa
E existe uma outra pesquisa também que tá aqui no nosso slide, ela foi feita no Reino Unido. Lá o movimento das pessoas com deficiência é extremamente organizado e um grupo desse movimento que se define como We Are Purple, nós somos roxos em inglês, eles fizeram um estudo e publicaram um relatório e vários infográficos, exatamente também falando o potencial de consumo, o valor em dinheiro que os negócios perdiam anualmente por não serem acessíveis. E esse valor é, nada mais nada menos, do que dois bilhões de libras por mês.
É um valor muito relevante para qualquer empresário, qualquer pessoa que esteja pensando em inserir acessibilidade no seu planejamento de negócio.
E lembrando, como eu falei, não são só as pessoas com deficiência, elas não existem sozinhas, e portanto o investimento em acessibilidade não beneficia somente a elas, mas as pessoas que se relacionam a elas, enfim, se relacionam com elas, sejam amigos, familiares… E um dos dados dessa pesquisa também se refere a isso: 75% das pessoas que responderam a pesquisa ou seus familiares, já saíram de algum estabelecimento, já saíram de algum lugar, pela falta de acessibilidade ou pela falta de atendimento.
E aí é muito importante a gente pensar na questão da reputação, o quanto essa experiência positiva ou negativa vai se espalhar entre as pessoas da própria comunidade, amigos, familiares e tudo mais…
Lembrando que esse público em potencial é extremamente relevante principalmente por todo esse desdobramento, né? Que ainda é possível a gente explorar.
E quando a gente vem para o Brasil, a situação também é similar. A parcela da população com deficiência,segundo o último IBGE de 2010, é de 23,9% da população. O que é o equivalente a 45 milhões de pessoas no Brasil. Isso é o equivalente quase à população da Argentina ou da Espanha. Então imagina toda essa parcela de pessoas, que compreende todas as deficiências, visual, auditiva, física, intelectual… Todas essas pessoas e seus amigos e seus familiares podem não estar sendo ainda tão bem atendidos quanto elas poderiam, em termos de serem reconhecidas como consumidoras da sua marca, da sua empresa, do seu serviço.
Esse público em potencial aqui no Brasil também tem um poder aquisitivo equivalente a 5.3 milhões de dólares por mês. Esse dado é de 2010. E mais do que tudo, é mais do que, de novo entendendo a acessibilidade como um investimento, quando a gente se torna o nosso serviço, nosso produto mais acessível ele vai ser mais relevante não só para esse público, mas também pras pessoas que souberem disso, né? Então hoje em dia a gente tem um consumo consciente a cada vez mais forte, e as pessoas escolhem suas marcas a partir da cultura e do comportamento da empresa.
Então quando ela investe em desenvolver um produto mais acessível, uma campanha mais acessível, ela tá beneficiando não só o consumidor com deficiência na ponta final, e também seus familiares e seus amigos, mas também trazendo uma vantagem para a própria empresa e impactando positivamente os seus outros formadores de opinião, ou stakeholders, a imprensa, e outras pessoas também. Ou seja, investir em acessibilidade, pensar em um consumo cada vez mais inclusivo é muito importante e muito positivo para todos.
É o que eu sempre falo: é um ganha-ganha-ganha. Todo mundo ganha nessa equação.
E lembrando que é a grande mudança de mentalidade uma das primeiras grandes mudanças de mentalidade para gente pensar na pessoa com deficiência como público-alvo é encarar a acessibilidade como um investimento. Muitas vezes as pessoas têm um certo receio uma certa barreira achando que a acessibilidade é muito caro e muito difícil, são muitas angústias e muitos medos, então a ideia é que nessa aula, a gente já tenha tirado uma boa parte das dúvidas trazendo um pouco mais informação e nas próximas vocês também possam ficar muito mais confortáveis com relação a esse tema, com relação à argumentação e principalmente com relação a mão na massa.
Como a gente pode de fato mudar atitudes para que a gente possa mudar o nosso entorno para que a gente possa mudar a sociedade e fazer com que ela seja cada vez mais acessível.
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A gente sempre tem aquele cenário perfeito, né? O tal “mundo ideal”, onde tudo dá certo, onde o Plano A não falha, onde o dinheiro que temos será o suficiente para os nossos planos. Mas e o mundo ideal da acessibilidade? Como ele é? Onde ele fica? Quem o habita?
O “mundo ideal” da acessibilidade não é um espaço onírico, cheio de duendes, fadas e seres espetaculares, é o mundo em que vivemos, que interagimos todos os dias e não fica numa dimensão paralela. Considerando tudo isso resolvi listar algumas coisas que mudariam toda a nossa experiência se fossem mais acessíveis e mostrar por A + B o que queremos dizer para os nossos clientes quando falamos “A acessibilidade é benéfica para todes, não somente para aqueles que têm algum tipo de deficiência.
Da navegação estranha, à falta de uma descrição coesa sobre o produto, até a ausência de uma relação informando quais itens viriam na compra, muitas pessoas (com ou sem deficiência) acabam desistindo de realizar uma compra porque não têm acesso à informações ou recursos necessários para tomar a decisão de compra.
Imagina se as plataformas de compra fossem construídas considerando a acessibilidade? Quantas pessoas não iriam sair dessa experiência satisfeitas por conseguirem realizar a compra de um item desejado. Quantos donos de estabelecimento não veriam seu lucro aumentar pelo simples fato de ter uma plataforma acessível a todos.
A cultura do barzinho é muito forte no Brasil, tem bar para todos os gostos e bolsos. Mas no bar tem aquele momento fatídico em que você terá de sair da sua cadeira. Isso é uma tarefa quase impossível se a noite for “boa”. Enfrentar um mar de gente para se locomover, ter que ficar se apertando entre cadeiras, além do medo do celular cair do bolso num vórtice de pernas que você nunca mais vai encontrar.
Vamos considerar aqui que o seu barzinho de estimação tenha pensado em acessibilidade. Esse problema não iria existir, pois todas as rotas de trânsito de pessoas teriam sido desenhadas pensando na acessibilidade dos frequentadores. Da cadeira de rodas, ao carrinho de bebê, passando por aquela mochila enorme cheia de livros, nada disso seria um impeditivo para um momento de descontração no seu bar favorito.
O banheiro é um lugar visitado por todos, porque todo mundo tem necessidades fisiológicas. Mas como esse é um post para falar sobre como a acessibilidade não é só para quem tem alguma deficiência, vou listar aqui pessoas que precisam de um banheiro acessível:
Muitas plataformas já possuem ferramentas para acessibilidade, mas imagina como seria legal se os criadores de conteúdo também considerassem a acessibilidade na hora de criar seus posts? Um hábito que está (ainda bem) crescendo cada vez mais são os vídeos com legenda, no qual a pessoa legenda o que ela está falando no vídeo.
Além de ser uma ótima prática, pois a pessoa está deixando o seu conteúdo acessível para aqueles que não irão ouvir, também ajuda aqueles que querem utilizar as redes sociais e não necessariamente estão podendo utilizar a função de áudio, sendo bom até para memorizar melhor aquele conteúdo. Agora imagina como será legal quando todo mundo puder ter acesso aos posts que estão nas redes sociais?
Essas foram somente quatro coisas do nosso dia a dia que beneficiam todo mundo sendo acessíveis. Ao invés de pensarmos na acessibilidade como uma ferramenta que vai incluir uma camada da sociedade, estamos falando de uma postura que deixará de excluir uma camada da sociedade.
Agora vamos pensar aqui no que mais podemos fazer para que esse “mundo ideal da acessibilidade” na verdade seja o mundo ideal para todo mundo?
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Dia 12 de junho é uma data para celebrar o amor. Mas também é o dia responsável pelo aumento de 30% no faturamento dos bares e restaurantes, 10% no comércio eletrônico, 20% no setor de motéis, 15% no setor de sex shops compondo uma injeção de até R$15,6 bilhões na economia. O Dia dos Namorados é, certamente, uma das melhores datas do setor comercial para a realização de promoções de vendas. No primeiro semestre, sobretudo, essa data comemorativa só perde em faturamento para o Dia das Mães. Mas será que todos os apaixonados podem participar e aproveitar plenamente essas ofertas?
Para falarmos da participação da pessoa com deficiência nas promoções de dia dos namorados é preciso desconstruir uma barreira importante de reconhecer a pessoa como alguém “namorável” – isso passa pela percepção de pessoa, de gênero, de sujeito, de cidadão, de parceiro, de amigo, de amante, de companheiro de vida – e plenamente participante de um relacionamento, com tudo incluso: declarações, rotina, viagens, brigas, prazer, etc.
Para atingirmos o ideal de sociedade inclusiva ainda temos que avançar muito, e o primeiro passo é quebrar os mitos existentes:
Esses mitos, além de gerar preconceitos desastrosos, acabam reforçando também abordagens estereotipadas que costumam recair sobre qualquer tema quando aplicado à pessoa com deficiência: o Coitadismo, o Super-Heroísmo e agora somando também a Infantilização – diferentes facetas do Capacitismo.
Visualizem a seguinte cena: uma mulher senta-se num restaurante chique com seu namorado para um jantar romântico e o garçom, na hora de retirar o pedido afaga seu cocoruto dizendo com uma voz fina “ai que belezinha, que bonitinha ela, veio no passeiozinho né?” imagina que agradável, só que não. Se essa situação parece um absurdo quando imaginamos a cena com um casal sem deficiência, por que ela passaria a fazer sentido se a personagem tivesse síndrome de down, ou estivesse numa cadeira de rodas ou segurando uma bengala branca, por exemplo? (Dica: continua sendo um absurdo)
Como estamos falando de casais, essa dupla pode ser formada por duas pessoas sem deficiência, duas pessoas com deficiência ou uma pessoa com e outra sem deficiência. É aí que a porteira do capacitismo se abre com os primeiros comentários “Ela é tão bonita, pena que é surda” ou “Ele é um partidão, apesar de ser cadeirante” indo para o “super-heroísmo reverso” direcionado a pessoa sem deficiência, como conta Michele Simões:
“Acho tão absurda essa mania que as pessoas têm de classificar os relacionamentos com a mesma lógica de animais de raça, onde o importante é manter as mesmas características para uma linhagem pura. Então imagina o susto quando eu, como cadeirante, entro em um local público de mãos dadas com meu marido – o que por si só já gera um impacto e tanto, afinal ainda se acredita que deficientes não saem de casa, quanto mais se casam e têm filhos – que, para a surpresa geral da nação, anda e não é deficiente.
Após essa sequência, geralmente me deparo com um parabéns direcionado a ele, seguido da justificativa ‘não era qualquer pessoa que aceitaria essa situação, isso sim é prova de amor’”.
Michele é estilista, consultora de imagem e idealizadora do projeto Meu Corpo É Real, que visa questionar os corpos que a indústria da moda trabalha em suas produções e campanhas.
Segundo Ana Rita de Paula, Doutora em Psicologia, especialista em direitos das pessoas com deficiência, em políticas públicas e ativista do movimento, a barreira da sexualidade é a última a ser rompida, “Significa que você já rompeu todas as anteriores”. Ela explica que essa luta – que também é política – é altamente relevante, uma vez que as discussões sobre acessibilidade e inclusão ficavam sempre voltadas, e muitas vezes restritas, aos temas de trabalho, educação e saúde.

Este é o foco da militância do Coletivo Sim Fodemos, um grupo de pessoas com deficiência que começou a se organizar para abrir esse debate com toda a sociedade. Segundo os organizadores:
“O debate em torno desses temas, corpo, sexo, sexualidade, permite inserir as demandas das pessoas com deficiência num cenário de discussões muito mais amplo do que as discussões em torno da acessibilidade, inclusão escolar, no mercado de trabalho, e outros. Direitos inalienáveis das pessoas com deficiência, mas que não têm possibilitado que as pessoas com deficiência adentrem em discussões, debates e lutas mais amplas e radicais da sociedade brasileira, como as questões de gênero, de padrões corporais e comportamentais, orientação sexual, violência sexual e outros dessa esfera dos direitos humanos.“
O Curta metragem O Corpo Deseja, idealizado e dirigido por Juliana Ribeiro, que foi exibido em um dos encontros do coletivo e trata bem essa questão. Lembrando que a causa não se aplica somente a deficiência física, mas também visual, auditiva e intelectual, essa última que sofre ainda mais barreiras dentro da própria diversidade.
Pipas no Ar é um trabalho pioneiro na área de inclusão social e direitos humanos dirigido pelas psicólogas Lilian Galvão e Fernanda Sodelli em 2005. As oficinas de educação sexual para jovens com deficiência intelectual comprovaram a possibilidade e a necessidade de se trabalhar com pessoas que recebem poucas informações sobre tema, em conseqüência de preconceitos e pensamentos equivocados a respeito da deficiência intelectual e da sexualidade. O documentário Pipas no Ar, realizado com apoio da UNESCO, documentou estas oficinas no Carpe Diem, em São Paulo.
Não podemos ignorar o fato de que – para a maioria das pessoas – prazer a dois é parte fundamental de um relacionamento.
A Organização Mundial da Saúde afirma que a sexualidade é um aspecto importante do bem-estar holístico e que a saúde sexual exige “uma abordagem positiva e respeitosa da sexualidade e das relações sexuais, bem como a possibilidade de ter experiências sexuais agradáveis e seguras.”
É imprescindível reconhecer o sexo como AVD (Atividade de Vida Diária) no processo de reabilitação ou desenvolvimento nas terapias ao longo da vida, especialmente com profissionais de terapia ocupacional, “a fim de aumentar a capacidade do cliente em participar de atividades sexuais, treinar a atividade, desenvolver habilidades e competências, adaptações e indicação de produtos assistivos que permitam a vivência da sexualidade prazerosa, de acordo com os valores e desejo do cliente e de seu parceiro, são os principais objetivos da intervenção Terapêutica Ocupacional na sexualidade da pessoa com deficiência, de qualquer faixa etária e de qualquer nível funcional. Isso tem um um efeito profundo na vida dessa pessoa“, segundo Dra. Maria de Mello, Terapeuta Ocupacional, Pós Doutora em Ciências da Reabilitação e Tecnologia Assistiva; Coordenadora Geral da Technocare – Soluções Assistiva, Design Universal e Acessibilidade
Mas voltemos a nossa data tão florida e comemorada de hoje. Será que os segmentos citados no início estão atentos a essas oportunidades? No Brasil existem aproximadamente 5 mil motéis. Somente na Grande São Paulo são 300 motéis e no estado 1.200 estabelecimentos. Mas no Guia de Motéis, um dos principais buscadores do segmento, somente 18 se dizem acessíveis (“Suíte com acessibilidade”) em todas as regiões do país.
Será que os bares e restaurantes estão pensando na sua estrutura física (acesso, experiência, banheiros) e no processo de reservas? Como é o cardápio? E o treinamento de sua equipe para lidar com as diferenças?
O e-commerce é acessível a todo tipo de navegação? A escolha de um item, inserção no carrinho, cálculo de frete, finalização da compra. Funciona corretamente com o leitor de tela? E numa loja física, os atendentes estão treinados para atender todos os possíveis compradores?
Os estabelecimentos que não possuem esse olhar, certamente estão perdendo uma boa parcela do público. Que precisa se esforçar previamente para garantir uma experiência agradável.
“Minhas experiências ‘positivas’ nos relacionamentos afetivos, no casos de passeios e motéis, sempre dependeu de uma boa pesquisa prévia, para evitar surpresas desagradáveis, e também muita assertividade e uma boa pitada de cara feia. São raros, raríssimos os locais plenamente acessíveis. Esses dias mesmo, ao ir visitar o SESC Paulista, constatei que os vasos sanitários são aqueles abertos no meio, e olha que o SESC segue um padrão de acessibilidade de alto nível. Mas, é importante não perder o bom humor jamais, e no caso de restaurantes e bares, pelo menos nos bairros tradicionais de vida noturna em SP, dá para encontrar locais acessíveis. Com todo o cuidado, pois muitos locais acessíveis deixam de ser acessíveis quando estão lotados. Mas, repetindo, a pesquisa prévia é fundamental. É importante ter claro e bem resolvido que não dá para ir a todos os lugares, e, no meu caso, faço questão de conforto e certeza de que vou, por exemplo, poder usar o banheiro. Quanto a motéis, é possível encontrar alguns com suítes no térreo, e como os banheiros normalmente são grandes, o problema está ‘quase’ resolvido. No último motel em que fui, a suíte ficava no térreo, pesquisei antes, a garagem era tão estreita que não consegui desembarcar, pois não era possível chegar com a cadeira de rodas ao lado do passageiro, que era a minha situação naquele momento, mesmo minha amiga tendo encostado o carro o máximo do seu lado, tendo que passar por cima de mim para desembarcar. Tivemos que dar ré e fazer o desembarque, e posterior embarque, do lado de fora da garagem. Felizmente não estava chovendo, nem tínhamos problemas em manter discrição.” Tuca Munhoz, Ativista pelos direitos das pessoas com deficiência. Ex secretário adjunto da Secretária da Pessoa com Deficiência . Assessor do Grupo de Trabalho Acessibilidade São Paulo Transportes S/A e Coordenador do Coletivo Sim Fodemos.
Com esses questionamentos e colocações desejamos um feliz dia dos namorados a TODOS !
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